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Maestra ou Maestrina?

Como uma maestra renomada com anos de experiência na área, sempre me dediquei a investigar e compreender as nuances da minha profissão. No ano de 2023, tive a honra de ser convidada a esclarecer uma questão com a publicação de um artigo na revista Comparative Cultural Studies: European and Latin American Perspectives , que há muito tempo tem sido debatida no meio musical brasileiro: o uso equivocado do termo "maestrina" para se referir a uma regente do sexo feminino.


MAESTRA, o termo apropriado em língua portuguesa.


Considerações sobre o meu artigo: "Francisca Gonzaga - maestra ou maestrina? Inferências de uma profissão oitocentista" (DOI: 10.46661/ccselap-14301| ISSN 2531-9884)

 

A língua portuguesa


A língua portuguesa, assim como muitas outras, possui uma rica história de evolução e adaptação. No entanto, algumas convenções linguísticas acabam perpetuando estereótipos de gênero e reforçando desigualdades. Como afirma a linguista Deborah Cameron, "a linguagem não apenas reflete a sociedade, mas também a molda" (Cameron, 1995, p. 15).


O termo "maestrina", seu uso equivocado reflete uma visão ultrapassada e diminui a importância do papel das mulheres na regência orquestral.

Derivações e significados

A palavra "maestrina" é derivada do italiano e, nesse idioma, refere-se à esposa do maestro, não à regente em si. Como explica a musicóloga italiana Gabriella Biagi Ravenni, "o sufixo '-ina' em italiano geralmente denota uma forma diminutiva ou afetiva, não uma indicação de profissão" (Ravenni, 2003, p. 78). Portanto, o uso desse termo no contexto brasileiro não apenas é incorreto do ponto de vista linguístico, mas também carrega uma conotação pejorativa.


O estudo e a profissão


A regência orquestral é uma profissão que exige anos de estudo, dedicação e habilidade. As mulheres que alcançam esse posto merecem ser reconhecidas pelo seu mérito e competência, não por um título que as diminui. É fundamental que a sociedade compreenda a importância de utilizar a terminologia correta, valorizando assim a contribuição das mulheres na área.


Importância do uso do termo MAESTRA


Além disso, o uso do termo "maestra" não apenas reconhece a competência das regentes, mas também contribui para a visibilidade das mulheres na música. Historicamente, a regência orquestral tem sido um campo dominado pelos homens, com poucas mulheres ocupando posições de destaque. Como ressalta a pesquisadora Lucy Green, "a sub-representação das mulheres na música clássica é um reflexo das desigualdades de gênero na sociedade como um todo" (Green, 1997, p. 54). Ao adotarmos o termo correto, estamos dando um passo importante para a construção de um meio musical mais igualitário.


A mudança de "maestrina" para "maestra" não é apenas uma questão semântica, mas sim um reflexo de uma transformação mais ampla na sociedade.

Como destaca a filósofa Simone de Beauvoir, "não se nasce mulher, torna-se mulher" (Beauvoir, 1949, p. 267). Essa afirmação ressalta o papel da sociedade na construção das identidades de gênero e na perpetuação de estereótipos. Ao adotarmos uma linguagem mais inclusiva e respeitosa, estamos contribuindo para a desconstrução desses padrões limitantes.


A adoção do termo "maestra" não apenas valoriza as mulheres na regência, mas também inspira as futuras gerações de musicistas. Como afirma a pesquisadora Susan McClary, "a presença de modelos femininos bem-sucedidos é fundamental para encorajar mais meninas a seguirem carreira na música" (McClary, 1991, p. 18). Ao utilizarmos a terminologia correta, estamos contribuindo para a construção de um ambiente mais acolhedor e inclusivo, onde todas as pessoas, independentemente do gênero, possam desenvolver seu potencial artístico.


É importante ressaltar que a luta pela igualdade de gênero na música não se limita apenas à questão da terminologia. Há ainda muitos desafios a serem enfrentados, como a disparidade salarial, a sub-representação das mulheres em posições de liderança e a discriminação velada. No entanto, a adoção do termo "maestra" é um passo significativo nessa jornada, pois demonstra um compromisso com a valorização e o respeito às mulheres na profissão.

Conclusão


Como uma maestra com anos de experiência,


Acredito que a mudança de "maestrina" para "maestra" é mais do que uma simples correção terminológica. É um ato de empoderamento e reconhecimento da competência e do valor das mulheres na regência orquestral.

Ao adotarmos a terminologia correta, estamos contribuindo para a construção de um meio musical mais justo, inclusivo e diverso. Que possamos continuar trabalhando juntos para quebrar estereótipos, desafiar convenções e abrir caminhos para as futuras gerações de maestras brilharem em seus talentos e realizações.


Referências:

Referências:

Beauvoir, S. (1949). O Segundo Sexo. Nova Fronteira.

Cameron, D. (1995). Verbal Hygiene. Routledge.

Green, L. (1997). Music, Gender, Education. Cambridge University Press.

McClary, S. (1991). Feminine Endings: Music, Gender, and Sexuality. University of Minnesota Press.

Ravenni, G. B. (2003). Women Conductors in Italy: A History. Pendragon Press.



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